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Os Perigos da Expectativa

Postado em 8 de Fevereiro de 2017

Das muitas histórias que escuto em conversas regadas a muito afeto e confiança com pessoas queridas e amigos muito caros, há um tema recorrente que muito tem me chamado a atenção ultimamente. Trata-se da decepção, sofrida em todos os âmbitos da vida.

Ouço roteiros e enredos muito diferentes, que como denominador comum, há o disparo de uma frase similar: ‘eu não esperava isso do(a) fulano(a)!’... Fico a seguir perguntando-me ou à pessoa, se este fulano não dera indícios do que faria; ou se o tal ciclano era mesmo como se imaginava, ou se ele era assim só mesmo na imaginação....

Na verdade, na grande maioria, para não dizer em todos os casos, sim, desenhamos uma pessoa ou uma relação de acordo com o que desejamos que seja. Há na verdade, uma expectativa alta depositada na relação com aquela pessoa, e quando as coisas não saem como no planejado, como esperado, vem aí, a decepção!

Creio que esta reflexão pode ser entendida para além das relações amorosas, e está impregnada em todo o movimento de construção da vida humana. Criamos expectativa com a faculdade, com a profissão, com o amigo, com o filho, com o familiar, com o chefe, com o vizinho, com a viagem.... e não há espaço para erros nesta criação. Portanto, o outro não pode falhar, o plano não pode sair diferente do idealizado. Quando isso acontece, nos perdemos, nos indignamos, insistindo em colocar a culpa fora de nós!

Idealizar, criar expectativa não é em si algo errado ou ruim; o que há, na verdade é uma grande chance de nos machucarmos, já que quando a situação de verdade se apresenta sendo diferente do que desejamos, vem o sofrimento. Em algum momento da vida ouvimos a expressão ‘ a expectativa é a mãe da decepção’; que nos coloca frente a frente com as idéias contidas nestas linhas. Quando criamos um mundo imaginado para cada uma das nossas realizações, perdemos, muitas vezes, a chance de vivenciar o que a experiência nos apresenta! Ou seja, nada menos do que o esperado às vezes nos satisfaz, e o que se apresenta como real não parece satisfatório. Este é o retrato da decepção!

Viver uma vida sem expectativas baseadas na idealização do ser humano, ou da situação, parece monótono e triste, mas, se adentrarmos mais profundamente nesta possibilidade, perceberemos que o que parece insosso é na verdade, uma grande chance de proteção, e mais adiante, uma ponte para a convivência honesta e afetuosa com o outro, porque enfim, o aceitamos e aceitamos o que a vida nos traz.

Quando damos espaço para que o outro seja como ele é, e para que as situações se apresentem como têm que ser, o fator decepção, embora não desapareça, diminui consideravelmente. Isso se dá simplesmente porque não criamos expectativas inalcançáveis e sim, ficamos mais abertos para lidar com o que a vida nos proporciona.... neste movimento, começamos a nos livrar do julgamento que nos leva a conceitos muitas vezes equivocados nos afastando da vida e do ser humano, que é fantasticamente falho e singular!

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças-adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe....”

Fernando Pessoa

Desejo vida a todos!