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Inveja boa????

Postado em 20 de Agosto de 2018

Um dia desses eu estava com uns amigos artistas, e como todo artista, a disposição para se desnudar e expor seus sentimentos são a força base de sua existência. Cada um falando do que pouco expõe aos outros era o clima do encontro naquela ocasião. Naquele momento tão delicioso onde todos estavam sendo honestos e rindo de si mesmos, um amigo solta “o que eu admito é que eu sinto muita inveja”. Depois de alguns segundos alguém para aliviar um desconforto revelador “eu também sinto.... aquela invejinha boa”; e ele corajosamente complementa, “não sei se a inveja que eu sinto é boa ou ruim, mas, eu sinto”....

Admirável a coragem de um ser humano para se abrir para o autoconhecer desta forma! Não é simples, não é fácil, mas é possível e necessário!

Nesses anos de trabalho clínico eu sempre ouvi expressões similares, sempre no sentido de (des)colorir a inveja, “deu até aquela invejinha boa, aquela branca, sabe.” Eu, ficava sempre pensando nesta constante tentativa que nós, seres humanos, fazemos para tentar mudar a forma do que de fato sentimos e pensamos. No processo terapêutico, para aqueles que se abrem, estes véus podem ser tirados e a visão embaixo deles, pode ser transformada em força e singularidade. Nem todos, infelizmente, abrem-se para esta árdua tarefa.

Analisando muitos lados da questão inveja, é claro que alguém pode denominar sua inveja de branca ou boa e ela realmente pode ser, mas será que é sempre? Ou, será que não é importante encará-la de frente, talvez não tão branca e nem tão boa, e poder a partir daí transmutá-la? Será que nós o tempo todo não ficamos fazendo um esforço doloroso e difícil de esconder, principalmente de nós mesmos, o que sentimos, como sentimos, jogando tudo para um local temido, inacessível, onde monstros se criam? Será que não é esta tentativa deveras cansativa que faz com que desistamos da terapia, dos projetos, dos encontros, das trocas e de tudo o mais que evitamos por puro medo, principalmente, de nós mesmos?

Encarar-nos, deixar aparecer o que trazemos dentro de nós é grande parte do esforço rumo à liberdade, à libertação, à transmutação. Transformamos aquilo que já possui uma forma definida. Podemos sim, transformar inveja em motivação para crescermos, em inspiração para encontrar nosso próprio caminho, mas, antes, precisamos assumir a árdua tarefa de olhar no espelho.

Olhar no espelho fará aparecer não somente a nossa inveja, que foi a ponta do novelo da reflexão de hoje, mas, fará aparecer também todo o emaranhado de sentimentos e emoções que nos compõem, e é isso que nos faz fascinantes, é isso que nos faz humanos!

Desejo vida a todos!