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Escolhas

Postado em 30 de Agosto de 2016

Sempre gostei de histórias, principalmente as que de algum modo afetivo entraram na minha vida, no meu mundo interno, contadas por alguém que fez parte do meu desenvolvimento, desde o mais tenro ao mais acadêmico. Não à toa, sempre que dou uma palestra ou até mesmo quando falando com alguém que está aos meus cuidados utilizo de uma história que em algum momento ouvi ou li. Acho que os contos, lendas, mitos, fábulas, historietas enfim, criadas para ilustrar e incentivar uma reflexão são extremamente válidas.

Resolvi, pois, compartilhar hoje uma fábula de Esopo, O cão e a carne, contada pela extraordinária Ruth Rocha, para ilustrar um tema quando deixarei algumas reflexões a seguir:

Um cão vinha caminhando com um pedaço de carne na boca. Quando passou ao lado do rio, viu sua própria imagem na água. Pensando que havia na água um novo pedaço de carne, soltou o que carregava para apanhar o outro. O pedaço de carne caiu na água e se foi, assim como a sua imagem. E o cão, que queria os dois, ficou sem nenhum.

Nesta fábula poderíamos nos amparar para pensarmos sobre várias questões. Mas, o objetivo não é dissecá-la. É apenas pegar-lhe emprestado um aspecto sobre o que desejo pontuar. Falo hoje de escolhas.

Escolher é um princípio fundamental da natureza humana, embora, muitas vezes, passemos por nossas escolhas sem nos dar conta que as fazemos todo o tempo. Não posso fundamentalmente calçar-me de 3 sapatos pela manhã e sair para um dia produtivo de trabalho. Poder eu até posso, mas certamente haverá um desconforto ao longo desse dia, e talvez, eu reconheça aí a minha dificuldade e a minha condição humana: sou convocada a escolher, não tenho escolha. Um sapato escolhido me dará muito mais condição de caminhar do que tentar realizar a proeza de me movimentar com os três. Certamente, no mínimo, cairei exausta pelas diferenças entre o trio. Esta é a dificuldade também enfrentada pelo cão, ou seja, assumir sua escolha e seguir o caminho com seu pedaço de carne, provavelmente conquistado com luta. Mas, traz também a dificuldade maior embutida no ato de escolher: deixar para trás, abrir mão. Esta é, pois, a essência da opção. Optar por algo nos obriga a deixar inúmeras outras possibilidades de lado. E, alcançar a clareza deste aspecto da escolha é o que a torna tão difícil, no entanto, é o que nos traz paz de viver. O cão, inebriado pela fantasia de abocanhar 2 pedaços de carne ao mesmo tempo, nem se deu conta de que tal tentativa se tratava de uma ilusão, uma ilusão que lhe custou caro, por sinal, isto é, ficou sem nada. Talvez, outra análise desta fábula nos colocasse sob o aspecto moral óbvio contido na historieta: a ganância do cão, que queria duas coisas ao mesmo tempo, o que significou perder tudo. Creio, no entanto, que esta ganância inicial pode ser vista pelo ângulo do equívoco. Equívoco este que nós humanos cometemos. Achamos que produtivo é fazer várias coisas ao mesmo tempo, estar com mais de um companheiro de uma vez, trabalhar em dois ou três empregos quando temos um corpo, uma saúde a dar conta... não queremos concessões. As fronteiras do posso fazer tudo ao mesmo tempo estão abertas. Nos tornamos multifuncionais como nossos tão amados aparelhos eletrônicos, que, se repararmos com um pouco mais de cautela tem sua vida útil cada vez mais curta. Não queremos perder.... nada. Mas, também não temos tempo para ganhar, mergulhar e assumir o que escolhemos. Nos atemos e sentimos falta e vazio, nos sentimos pra trás na corrida frenética do tenho que dar conta e tudo, ou do preciso participar do que todo mundo faz agora que esquecemos de nossa condição essencial: a humanidade, frágil, finita e carente de cuidados. Escolher cuidar de nós mesmos vivendo de fato cada escolha é algo que nos ensina algo fundamental: abrir mão faz parte da vida, nos tornando muito mais eficientes na realização dos nossos sonhos.

Desejo vida a todos!