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Crescer, A Condição da Vida

Postado em 29 de Setembro de 2016

Um dia desses ao aguar uma das plantas que faço questão de cultivar na clínica, sim, porque além de um prazer é algo que considero muito simbólico, deparei-me refazendo uma análise até simplória, feita outras vezes obviamente, a qual tem a ver com a similaridade sem igual de uma planta com o humano; em quão somos parecidos em nosso crescimento! Uma das famílias que considero mais incríveis, entre tantas outras, são as orquídeas, em todo seu esplendor de tamanhos e cores. Algumas muito raras, outras belas e encantadoras por serem comuns, se é que uma orquídea pode ser comum, outras minúsculas, quase tímidas com tamanha beleza. Todas elas necessitando do básico: sol, água e afeto. Sim, porque não dizer afeto, amor, cuidado, respeito à sua singularidade.

É comum, claro, a comparação sugerida aqui, mas, ao mesmo tempo extraordinária, afinal, do que mais uma espécie precisa? E não falo apenas das orquídeas....

No prazer de aguar-lhes, algo me fez divagar ainda mais: suas raízes, entranhadas em musgos, madeiras, substratos.... vi-me mais uma vez tocada pela sua força. Ali, expostas em franco desenvolvimento, as raízes têm a mesma importância do que está acima, embora sejam invisíveis, imperceptíveis muitas vezes. Fiquei pensando em como crescer para baixo, para dentro é tão ou mais importante do que o que está visível, admirado, notado. E todo o processo é fantástico, apesar de levar tempo, de necessitar de uma série de condições para que se realize!

Crescer, sem dúvida é condição nata de existir, mas sem dúvida também não é algo simples como parece, fácil ou indolor. Crescer para dentro para ter condição de encarar onde assentam nossas raízes é deveras difícil. É preciso espaço, tempo e uma força vital para enfrentar o que aparece escuro e desconhecido.

Crescer significa desenvolver-se, o que é ainda mais complicado do que aparenta. Se dividirmos a palavra des→envolvimento entenderemos melhor seu sentido na vida humana. O prefixo de origem latina des que significa separar, elucida o se faz importante pensar. É preciso envolver-se e depois deixar ir. Desenvolver é uma dança infinita com a mudança. E quando decidimos, escolhemos, sim, porque a escolha é sempre nossa, quando escolhemos não mexer em nada, certamente adoecemos, sucumbimos. Isto, pois, tem a ver com cada fase da vida; com cada sentimento, ou o excesso dele, o excesso de raiva, de rancor, de desespero, e até de amor, entre tantos outros; tem a ver com cada verdade absoluta em que nos seguramos sem soltar; com cada comportamento que embora saibamos ser danoso não conseguimos deixar partir; com lembranças de um passado que não há como voltar, como transformar, ao não ser o sentido.... Mais uma vez me recordo do cuidado com a orquídea ou com qualquer outra planta. Para que cresça há que se podar, trocar o vaso de vez em quando e ir proporcionando condições para que aquela afinal se desenvolva. Pensar em condições para o desenvolvimento nos reporta a uma outra gama de reflexões e merece um espaço só seu, por isso, deixemos o tema condições para desenvolver-se para um outro texto em breve, mas, pensemos hoje na chance que nos damos, ou deixamos de nos dar para crescer! Muitas vezes, nos maltratamos tanto que não há água, sol, e muito menos afeto em relação a nós mesmo. Isto é o básico! Foi por onde começamos esta reflexão.

Adentrando um pouco mais acerca do conteúdo simbólico da água, do sol e do afeto, um dos aspectos que podemos pensar, primeiro em relação à água, tem a ver em como alimentamos nosso corpo, o quanto cuidamos de nossa saúde, o quanto estamos dispostos a nos responsabilizar pelo aqui-onde-eu-habito ; quanto ao sol tem a ver com a alegria, com a necessidade de cultura, de lazer, de sorrir, de satisfazer nossa psique com alimentos ‘subjetivos’, mas, fundamentais; e o afeto claro, tem a ver com o quanto nos cuidamos, nos perdoamos, nos damos um tempo para o crescimento, para a reflexão e o autoconhecimento. Autoconhecimento que talvez possa proporcionar todo o restante, principalmente o cultivo do nosso amor próprio. Que no jardim da vida possamos deixar nossas raízes irem o mais fundo o quanto consigam, que nossas folhas e espinhos sejam fortes e que possamos nos despedir deles quando necessário for e que nossas flores sejam nosso legado ao passar pela existência!

Desejo vida a todos!