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Atender às necessidades do desenvolvimento: dialogando sobre alguns aspectos da relação de pais e filhos

Postado em 29 Novembro de 2017

Ouço, não apenas no consultório, e sim por toda a parte, em cada reunião com familiares ou amigos, de pais que muito amam seus filhos e com eles se preocupam a seguinte expressão “dou pra eles aquilo que não tive”, ou “faço com que a vida deles seja mais fácil, melhor do que foi pra mim”. E isto, sim, claro, é uma demonstração de amor.

Mas, venho pensando muito nesta expressão, principalmente quando se trata de pais de crianças ou adolescentes que atendo. Sim, porque nestes casos tenho a incrível chance de ouvir às duas partes, e sem julgar, tento compreender o que esta motivação “dou pra eles aquilo que não tive” implica na vida de pais e filhos.

Do lado dos pais, percebo o quanto procuram prover em se tratando de boas escolas, cursos de línguas, viagens, brinquedos, livros, casas maiores, mais comida na mesa. Tudo isso, muitas vezes regado com certa dose de sacrifício das próprias necessidades individuais dos genitores. E, absolutamente, não há nada de errado em querer dar o melhor para os filhos.

Do lado dos filhos ouço o quanto suas vidas continuam difíceis, muitas vezes solitárias, o quanto sofrem por estarem pouco com seus pais, ou, o quanto são muitas vezes, desconhecidos uns dos outros. Ouço repetidas vezes, ainda, o quanto não encontram sentido ou motivação em suas escolhas.

E aí, levanto algumas questões. Percebo que muitas vezes é muito difícil realmente para as crianças e adolescentes enfrentar a solidão que encontram enquanto seus pais, cansados, tentam desesperadamente prover suas necessidades. Outras vezes, percebo o quanto não ter algumas dificuldades no cotidiano pode jogar crianças e adolescentes num estado apático e desprovido de sentido. Percebo ainda, que os pais perdem a qualidade da convivência com seus filhos, preocupados e dar a eles aquilo que não tiveram. E aí mora o ponto central desta reflexão. Quando os pais, carregados de amor e do intuito de ajudar, dizem e transformam em modelo de vida “dou pra eles aquilo que não tive”, estes pais mesmo sem intenção transformam seus filhos numa extensão deles mesmos.

Ora, se você quer dar aquilo que não teve para alguém, você está considerando que a pessoa, no caso seu filho, tem as mesmas necessidades que você, e muitas vezes, não tem! Dar a ele aquilo que você não teve é como tentar corrigir uma ‘falha’, um ‘déficit’ no que deveria ter acontecido na sua própria trajetória. Assim, parte-se do princípio que dar ao outro aquilo que não teve o fará feliz, esmagando assim, a necessidade única e particular que aquele ser, no caso o filho, possa ter.

Não é incomum conversar com pais que estão magoados porque os filhos não respondem como deveriam a toda sua tentativa de ajudá-los e prover o que consideram serem suas necessidades. E no discurso não é incomum aparecer expressões como “ele tem tudo”. Talvez essa mágoa venha justamente do fato que, se fosse ele, o pai, no lugar do filho teria tudo porque justamente olha da perspectiva do que faltou a si mesmo, e ora, se está completando, não falta mais nada.

Todos somos únicos e nossas necessidades são únicas também! Não há como dar ao outro aquilo que não se teve e achar que isso basta, porque simplesmente não basta. Prover, cuidar é parte do papel paterno e materno. No entanto, escutar, acolher e perceber que mesmo sendo fruto de uma família, um filho não é a extensão de ninguém, pode ser o primeiro degrau para relações mais felizes para os dois lados. Talvez menos pais magoados, menos filhos imaturos e culpados.

Quem sabe esta possibilidade nasça da reflexão que todos somos, antes de tudo, indivíduos!

Desejo vida a todos!